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VC#21 Viajando pelos Oceanos

Logos Hope (2019)

No dia 8 de junho foi comemorado o Dia Mundial dos Oceanos. Em homenagem a esse dia, o post e episódio dessa semana serão sobre viagens nos Oceanos. Embora eu não tenha um entrevistado sobre o tema dessa vez, vou compartilhar sobre quatro história verídicas, que li nos livros: A História do Navio Logos - navio sobre o qual ouvi falar pelos meus pais, li a história no referido livro e por fim, em 2019, finalmente conheci um de seus sucessores, o Logos Hope - Diário de Bordo: Um Navio, Um Casal, 30 países e muitas histórias, Trabalhe 4 horas por Semana e Diáriode Bordo uma Viagem ao Caribe.

O primeiro livro, conta sobre o sonho que o seminarista americano George Verwer tinha nos anos 50 de criar um navio-livraria que viajaria o mundo compartilhando conhecimento por meio de livros, além de falar sobre a Palavra de Deus.

Esse sonho que parecia surreal tornou-se realidade em 1970 com a aquisição do navio. Essa aquisição por si só foi uma luta e uma prova para a fé desses homens, mas esse não foi o único desafio. Os primeiros tripulantes do navio eram homens marujos, que estavam acostumados a lidar apenas com pessoas que tinham "se provado" bons marinheiros. Quando George chegou no navio, teve que aprender a coordenar pessoas que vinham dos mais diversos backgrounds e que não se conheciam direito.

Os conflitos surgiram já da desconfiança que um tinha de que o outro tivesse habilidades suficientes. Muitos questionaram se realmente estavam onde deveriam estar, já que suas capacidades estavam sendo subutilizadas. A surpresa seguinte para os marinheiros foi quando as famílias chegaram a bordo. Vera Buurma, esposa do soldador do navio, conta sobre quando chegou à cabine pela primeira vez, no lugar que viria a ser seu lar por 6 anos (sim, seis anos!):

"Não tinha a mínima noção do que era aquilo tudo. Estava completamente entusiasmada e liguei para o meu marido, que já estava trabalhando no navio, e perguntei: "Como é o camarote?" Só ouvi silêncio do outro lado, algo muito raro para ele, que fala muito. Com uma voz muito mansa ele disse "É muito pequena". Foi aí que comecei a ficar um pouco preocupada. Mas, mesmo assim, fiz minhas malas. Bom, não só fiz as malas como usei duas Kombis como mala. Sou holandesa, e nós gostamos de ter a nossa casa toda arrumadinha e bonita. Pensava: ah, vai ser ótimo levar isso aqui comigo. Uma cestinha aqui para os jornais, um outro bibelozinho ali. E assim acabei chegando ao navio com um bebê de seis semanas e duas Kombis cheias de coisas. Subimos as escadas e entramos no camarote. Meu marido abriu a porta e eu fiquei muda de susto! Não podia ser verdade! Duas camas, uma sobre a outra, e uma poltronazinha em que mal cabia o bebê, uma mesinha e uma cadeira. E, é isso aí. Não cabia mais nada, nada mesmo. Mandei todas as minhas coisas de volta imediatamente. É incrível como podemos nos adaptar às coisas, pois passado um ano já achava tudo bem confortável e o camarote de bom tamanho." (Rhoton, 1988)

Depois disso houve outro incidente com o chefe de eletrônica do navio. Ele havia ocupado o armário de um camarote que estava vazio com partes eletrônicas. Quando uma das moças foi alocada para esse quarto, uma das responsáveis pela organização do navio o pediu que retirasse os equipamentos de lá, ao que ele respondeu que a moça nova "era gente boa" e entenderia a necessidade de ter os equipamentos. A moça da organização chocada, foi conversar com uma outra pessoa dizendo "gente boa ou não, ela é mulher e vai querer guardar suas coisas no armário!".
Cabine do Logos Hope (2019)


Com o passar do tempo, a tripulação se acostumou ao fato de que não era um navio cargueiro só com homens a bordo, mas o fato de famílias estarem alojadas lá exigia uma dinâmica diferente. Os desafios da tripulação começam com a inauguração em Londres e passam por França, Espanha, Ilhas Canárias, África do Sul, dentre outros países. Além de envolver relatos de jovens que decidem nadar no oceano sem saber que é uma região de tubarões, a criação de um programa de treinamento intensivo à bordo do navio, passagem por regiões de guerra e muitos aprendizados sobre relacionamentos e humildade.

De todos os livros que recomendarei nesse post, esse é sem dúvida o mais marcante para mim. A começar do fato de que cresci ouvindo falar desse navio. Ele veio ao Brasil quando os meus pais eram jovens e eles tinham memórias incríveis dessa visita. Algum tempo depois, tive a oportunidade de ter o livro em mãos, o qual devorei página a página aprendendo mais sobre o Logos. E, sem spoilers, aguardem pelo desfecho final contando quando o Logos (primeira embarcação) foi aposentado.

Em 2019, o Logos Hope (4º sucessor após o Logos original) veio para o Brasil e tive a felicidade de visitá-lo no Porto de Santos. A experiência foi incrível, sem sombra de dúvida eu conheci a livraria e tive contato com algumas das culturas que convivam à bordo. Eu já dividi o dormitório com meninas de 6 países diferente (Hungria, Cazaquistão, EUA, República Tcheca, Canadá e Brasil) e sei bem que conviver com outras culturas é um misto de diversão contínua e exercício de paciência.

Vocês podem ver mais sobre a vista no Instagram, eu sempre deixo nos destaques os stories dos episódios. E se quiserem saber onde o Logos Hope está agora, é só clicar nesse link.

O segundo livro sobre viagens pelo oceano é do casal Weslley e Eloá que viveu no Logos II, terceiro barco adquirido, mas sucessor direto do Logos já que foi adquirido logo após a aposentadoria do Logos - você vai entender melhor no último capítulo do livro do Logos.

Esse casal de Maringá, teve o primeiro contato com a OM (organização que coordena diversos ministérios, inclusive o do Logos) em 1996. Em 1999 eles foram voluntários na visita do navio ao Brasil, onde serviram por 20 dias. Nos anos 2000 eles participaram do treinamento e embarcaram no navio em setembro do mesmo ano.

7 garotas, 6 países
A história de seus desafios e benção já começa no treinamento e vai mostrando o crescimento do casal ao longo das diversas experiências que tiveram. Foram mais de 30 países visitados durante os dois anos de ministério. Nesse livro que li no ano passado (então está mais fresco na minha memória, o do Logos me marcou muito mas li há uns 3 anos pelo menos) duas histórias me chamaram a atenção: a da passagem pelas Ilhas Faroé e depois a passagem pela Jamaica.

São duas histórias muito diferentes. A primeira foi um momento inesperado de tranquilidade e acolhimento. A segunda foi a de viver em meio ao caos e ver a proteção de Deus em cada detalhe. A chegada do Logos nas Ilhas Faroé já era muito esperada, segundo o casal, porque a ilha é pequena e poucos navios passam por lá.

O navio foi recebido por cerca de 1,5 mil pessoas que cantavam e comemoravam a sua chegada. Os cristãos do país os receberam muito bem, com muita comida, eventos nas igrejas e o casal disse que sentiu-se tão servido e tão bem recebido que acham que a população local os abençoou mais do que eles foram capazes de os abençoar. Se não me engano, foram eles que deram tantos peixes para a tripulação que ainda durou por meses! [Esse é aquele momento em que eu queria dar ctrl + f no livro e poder achar onde que falava isso 😂 ]. Isso me lembra que hospitalidade e acolhimento não dependem de quanto você têm mas de quanto você está disposto a se doar.

A visita na Jamaica, por outro lado, expôs para mim um lado do país que eu não conhecia. O bairro de Trench Town, de onde veio o cantor Bob Marley, é mais perigoso do que a favela mais perigosa do Rio de Janeiro e foi por lá que eles trabalharam durante a estadia na Jamaica. A insegurança era tanta que ninguém podia sair do navio após às 18h.

O bairro de Trench Town não tinha transporte público e na época taxis não iam até lá (pelo que eu vi, atualmente é possível ir até o bairro de táxi). Não há policiamento e drogas são comercializadas livremente. Acho que o que mais me chocou foi que enquanto eles jogavam futebol em Trench Town, ouviram um barulho de tiros e era um jovem matando outro na frente deles. Foi um desespero geral, enquanto a equipe do Logos se reuniu e orou pelo jovem que dava seus últimos suspiros. Ler sobre essa cena me deixou bem impactada, quando Weslley nos lembra do quão frágil a nossa vida é e quão sem esperança somos se não cremos que a vida é mais do que essa terra.

Enfim, super recomendo o livro, que serve de tour cultural pelo mundo!

A próxima história, é a de Julie e Marc, relatada no livro Trabalhe 4 horas por Semana (p. 39 e 40). Embora não seja um livro de viagens, mas sim um livro de "como sair do seu trabalho das 9h às 18h e viver como um nômade digital", ele conta a história de um casal Francês que viajou pelo mundo em um veleiro com seus três filhos e isso por menos do que gastariam vivendo em Paris, onde moravam. Eles ainda contam do benefício que a mudança trouxe para a sua família em termos de união entre seus filhos além de eles criarem o hábito de ler, por estarem, durante 15 meses dentro de um barco, sem muitas outras opções de lazer durante as navegações.

O último livro que eu queria recomendar sobre viagens é o Diário de Bordo de Uma Viagem ao Caribe. Ele conta a história de Pancho Audrá, um brasileiro nascido em 1956 que comprou um veleiro com um grupo de amigos para ir até o Caribe. Partindo em 1988 de Ubatuba, eles navegaram pela costa brasileira, fazendo diversas paradas em cidades litorâneas e fazendo algumas trocas na tripulação ao longo do tempo. O livro conta sobre as belezas de Fernando de Noronha, as amizades que os tripulantes fizeram com navegantes de outros veleiros, ou ainda a graça que eles viram na moeda local ao chegar nas Antilhas:

"- Que dinheiro os senhores usam aqui?
- Titis - respondeu o homem no seu lustroso uniforme, ao lado do portão de saída do porto.
- Titis! - exclamei surpreso com uma expressão divertida no rosto. E, virando me para Giuliana e João, comentei em português:
- Que nome estranho para dinheiro.
O homem sem entender o que eu vira de tão engraçado no dinheiro deles, tirou uma nota do bolso e mostrou para mim. Nela estava escrito 'Trinidad e Tobago Dollars'. Claro, 'T e T dólares'. O 't' em inglês se pronuncia 'ti'.
Tentei explicar ao homem que 'ti' em português é 't' que 'titi' é um som engraçado e... ah, melhor esquecer, ele não estava entendendo nada."

O livro segue sempre com a perspectiva do Pancho de uma forma leve e engraçada contando tudo o que passam, até finalmente chegar no destino esperado: o famoso Caribe!

Enfim, espero que esses livros inspiram suas viagens - e sua imaginação se ainda estiver em quarentena. 

Abraços e boas viagens!

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